Kiko Arguello, doutor honoris causa pelo Instituto João Paulo II para a família


O instituto João Paulo II fora promovido pessoalmente pelo Servo de Deus do qual toma o nome com a missão de aprofundar sempre mais o conhecimento da verdade sobre o matrimônio e a família na Igreja e no mundo. 

Kiko riceve la laurea honoris causaPor meio desse reconhecimento, o Instituto, fundado pelo Papa Karol Wojtyla, atesta a contribuição teológica e pastoral do Caminho Neocatecumenal na obra em defesa da família, ameaçada hoje por uma cultura antifamiliar.

A láurea honoris causa foi conferida também a Pierpaolo Donati, professor titular de Sociologia na Universidade de Bologna.

 O Pontifício Instituto João Paulo II, com sede na Pontifícia Universidade Lateranense de Roma, na quarta-feira 13 de maio de 2009, outorgou o doutorado honoris causa pela plena valorização da família como sujeito eclesial e social, em plena consonância com a ideologia de João Paulo II, a Kiko Argüello, iniciador do Caminho Neocatecumenal junto a Carmen Hernández e a pe. Mario Pezzi.

 

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Laudatio de dom José Noriega, vicepresidente do Instituto João Paulo II

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1. A fecundidade é algo que pertence ao mistério de Deus Trindade. Bem sabemos que não pode provir de nós, homens, mas que é um dom que devemos acolher com alegria, sabendo que Jesus veio para que possamos dar fruto, e fruto abundante.

O Instituto Pontifício João Paulo II confere hoje o Doutoramento honoris causa a Kiko Argüello, porquanto reconhece no itinerário de formação cristã pós-batismal - por ele iniciado juntamente com Carmen Hernández -, uma fecundidade muito especial para a plena valorização da família como sujeito eclesial e social, em plena consonância com o pensamento de João Paulo II e com frutos abundantes em todo o mundo.

Kiko riceve la laurea honoris causa

O aproximar as pessoas das águas do Batismo permitiu que o rio de água viva que brota de Cristo voltasse a dar vida ao longo das suas margens, tornando possível que as famílias se reconstruam e floresçam, no testemunho magnificente da fecundidade de Deus Trindade, na Igreja. Nas pequenas comunidades em que está estruturado o Caminho Neocatecumenal, mediante as quais deseja viver o mistério da Sagrada Família de Nazaré, cada família é acolhida na sua especificidade relacional, sem que os seus membros sejam absorbidos de modo indiferenciado, e também é promovida na sua própria dimensão missionária. Assim se tem desenvolvido uma autêntica pastoral familiar, realizada segundo o espírito do nosso fundador, o Papa João Paulo II.

São três os aspectos que o nosso Instituto deseja pôr em destaque no que diz respeito ao fruto do Espírito na obra do novo Doutor. Em primeiro lugar, o fato de ter acompañado as famílias ao longo de um caminho de fecundidade. Em segundo lugar, o fato de ter oferecido um caminho concreto de culto familiar a Deus. E, em terceiro lugar, o fato de ter estimulado a missão da família.

2. A redescoberta da fecundidade do Batismo na vida do casal teve um dos seus frutos mais significativos na redescoberta da santidade do ato conjugal dos esposos. Vendo o seu amor como um dos lugares onde Deus atua, os esposos do Caminho têm-no vivido com uma singular abertura à vida, sabendo-se colaboradores de Deus na geração das pessoas. Num momento de crise e desorientação por parte de muitos, o acolhimento sem reservas da Encíclica profética de Paulo VI Humanae vitae, por parte das famílias do Caminho, foi um autêntico testemunho para toda a Igreja, mostrando que, se há uma comunidade viva que acompanha as famílias, é possível viver aquilo que a Igreja ensina como caminho específico da santidade do matrimônio, ultrapassando os nossos medos ou as nossas dificuldades.

3. A constituição de uma família, que tem na sua origem o acolhimento do mistério da fecundidade de Deus, implica, portanto, uma iniciação ao mistério. As famílias do Caminho Neocatecumenal entenderam-no rapidamente, adotando por isso uma forma particular de liturgia doméstica: diariamente, em casal, mas, de modo ainda mais especial, toda a família, ao domingo, na celebração das Laudes, vivida como um espaço onde se favorece o diálogo com Deus, num contexto de diálogo familiar. Deste modo, a grande missão de transmitir a fé aos filhos encontrou o âmbito próprio do testemunho dos pais, os quais ajudam os filhos a entender a importância da Palavra na sua história concreta. Nisto se demonstra como a relação entre pais e filhos também ajuda estes últimos no seu modo de se relacionarem com Deus, que é Pai, ou seja, de entrarem numa relação filial com o Senhor, tal como Jesus nolo deu a conhecer. Tudo isso nos ajuda a erguer os olhos para o verdadeiro Pai celeste, do qual recebemos realmente a vida e o amor. Nisto se deve reconhecer uma das razões principias do grande fruto de vocações que as famílias do Caminho Neocatecumenal têm sabido dar.

4. No contexto de uma secularização assustadora de “vastas zonas da terra onde a fé corre o perigo de se extinguir, qual chama que já não encontra alimento”, o Caminho Neocatecumenal tem sabido “tornar Deus presente de uma forma singular”: refiro-me ao grande testemunho das famílias em missão. De fato, a realidade do mistério do Deus Amor - que vive um mistério de comunhão em si mesmo, saindo de si próprio em missão para introduzir o homem na sua comunhão -, faz-se presente numa comunhão humana, a Sagrada Família de Nazaré, que se estende à vida da Igreja e que, por meio da família, chega a cada homem. Trata-se de um protagonismo vivido por toda a família como tal, levando à paróquia e ao mundo o testemunho daquilo que é uma família, com as suas dificuldades, mas, sobretudo, com as suas grandes esperanças. Ainda mais, o seu testemunho é o testemunho da Trindade em missão, quer dizer, da paixão do amor de Deus Trindade pelo homem. Da convicção de que o mundo precisa do testemunho, brotou também o apoio de Kiko Argüello à promoção do Family day, com a finalidade de ajudar todos a comprender a importância da família fundada no matrimônio, para cada homem e para a sociedade inteira.

São muitas as famílias em missão que receberam o crucifixo de João Paulo II. Você próprio, caro Kiko, o recebeu e o traz consigo como uma relíquia. Hoje o Instituto acadêmico por ele fundado, que se se sente muito honrado por ter recebido o seu nome, confere-lhe o Doutoramento honoris causa. Alguém poderia pensar que se trata de uma mudança substancial: receber a cruz não é o mesmo que receber um doutoramento! No entanto, estamos convencidos que o servo de Deus João Paulo II nos olha hoje com alegria da janela do céu e, no seu olhar, damo-nos conta de que este título é um alento para dar continuidade a esta missão em favor do homem, para que Deus possa levar à plenitude a fecundidade daquela água que Jesus nos ofereceu do alto da cruz.

  

 

Lectio magistralis di Kiko Argüello

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O Papa João XXIII dá início à Constituição Apostólica Humanae salutis (1961), com a qual convoca o Concílio Vaticano II, afirmando: “A Igreja assiste nos nossos dias a uma grave crise da humanidade, que trará consigo profundas mutações. Uma ordem nova está sendo gestada, e a Igreja tem à sua frente missões imensas, como nas épocas mais trágicas da história. De fat o, aquilo que hoje se exige da Igreja é que infunda nas veias da humanidade atual a virtude perene, vital e divina do Evangelho” (nº 2).

Kiko riceve la laurea honoris causa

O Espírito Santo, que anima e guia a Igreja, suscita o Concílio Vaticano II para responder à “grave crise” de que fala o Papa: o restabelecimento da Palavra de Deus (Dei Verbum), a reforma da liturgia (Sacrosanctum Concilium), uma nova eclesiologia, a Igreja como corpo e sacramento de salvação (Lumen Gentium), e isto em função da sua missão (Gaudium et Spes) de evangelização e salvação do homem contemporâneo.

Entre os numerosos dons que o Espírito Santo tem suscitado para pôr em prática a renovação desejada pelo Concílio conta-se também o Caminho Neocatecumenal1, que o Estatuto, aprovado de forma definitiva pela Santa Sé a 11 de Maio de 2008, define como: “Um itinerário de formação católica válida para a sociedade e para os tempos de hoje” (Art. 1 § 1), que se coloca “ao serviço do Bispo como uma das modalidades de realização diocesana da iniciação cristã e da educação permanente da fé” (Art. 1 § 2).

 O Estatuto, em particular o Título II (Art. 5-21), apresenta os elementos fundamentais do Neocatecumenato: as catequesis iniciais, o tripé em que se baseia (Palavra-Liturgia-Comunidade), e as suas fases, etapas e passagens.

A iniciação cristã é uma resposta providencial suscitada pelo Senhor para responder à descristianização atual. O Papa João Paulo II o tinha intuído muito bem.

No primeiro encontro que teve conosco em Castel Gandolfo, a 5 de Setembro de 1979, estando presentes a Carmen, o padre Mário e eu, disse-nos, depois da Missa, que, durante a celebração, tinha visto diante de si: ATEÍSMO – BATISMO – CATECUMENATO.

Naquele momento não entendi bem o que ele queria dizer, ainda mais, parecia-me um erro antepor o Batismo ao catecumenato. O catecumenato, na tradição da Igreja, era para aqueles que se preparavam para receber o Batismo.

A chave talvez nos seja dada pelo Papa nas palavras que dirigiu às Comunidades Neocatecumenais de uma paróquia de Roma: “Eu vejo assim a gênese do Neocatecumenato… alguém, não sei se o Kiko, se outros, ter-se-á interrogado: De onde provinha a força da Igreja primitiva, e de onde provém a debilidade da Igreja de hoje, muito mais numerosa? Julgo que terá encontrado a resposta no catecumenato, neste Caminho”.

Ao afirmar que tinha visto diante de si: ATEÍSMO – BATISMO – CATECUMENATO, que nos queria dizer o Papa?

Creio que, depois da experiência de ateísmo da Polônia, o Papa, cuja filosofia se baseia na fenomenologia de Husserl, queria dizer que, para responder à força do ateísmo moderno e da secularização, os cristãos batizados precisam de um catecumenato como tinha a Igreja primitiva, um catecumenato pós-batismal.

Durante vários séculos a Igreja primitiva teve um catecumenato sério, onde os catecúmenos deviam mostrar que tinham fé, que começavam a fazer obras de vida, obras que mostravam que neles atuava Cristo Ressuscitado. O Batismo era a gestação para uma nova criação, onde a síntese do anúncio do kerigma, a boa notícia, a mudança de vida moral e a liturgia eram uma única coisa.

A Igreja de hoje precisa desta formação séria. De fato, o mais importante para nós é uma única coisa: que se forme o homem novo, o homem celeste, mediante um sério itinerário de formação cristã; o homem que, como diz S. Paulo, leva no seu corpo o morrer de Jesus, para que nele se manifeste que Cristo está vivo, de tal modo que, quando o cristão morre, “o mundo recebe a vida”.

Esta iniciação cristã, que o Caminho Neocatecumenal propõe nos seus traços fundamentais, reconstrói a comunidade cristã e inspira-se na Sagrada Família de Nazaré. No Estatuto, diz-se, concretamente: “Modelo da comunidade neocatecumenal é a Sagrada Família de Nazaré, lugar histórico onde o Verbo de Deus, feito Homem, se torna adulto, crescendo em ‘sabedoria, idade e graça’, e submetendo-se a José e Maria[2]. Na comunidade, os neocatecúmenos tornam-se adultos na fé, crescendo em humildade, simplicidade e louvor, submetidos à Igreja” (Art. 7 § 2).

Igreja, comunidade cristã, Família de Nazaré, família humana: a passagem é clara. Foi o que nos disse o Papa João Paulo II numa memorável homilia que nos dirigiu na Festa da Sagrada Família, a 30 de Dezembro de 1988, em Porto San Giorgio, onde procedeu ao envio das primeiras setenta e duas famílias em missão: 

“Se há que falar de uma renovação, de uma regeneração da sociedade humana, ou antes, da Igreja como sociedade dos homens, há que começar por este ponto, por esta missão. Igreja Santa de Deus, tu não podes realizar a tua missão, não podes cumprir a tua missão no mundo, a não ser mediante a família e a sua missão”.[3]. 

O Caminho Neocatecumenal só pôde fazer aquilo que fez até hoje - famílias reconstruídas, filhos numerosos, vocações para a vida contemplativa e para o sacerdócio… - mediante esta obra de reconstrução da família. Gostaria de mencionar brevemente como se faz isto no Caminho, como se educam as famílias para a oração e para a transmissão da fé aos filhos. Com efeito, como diz o Catecismo da Igreja Católica, foram os pais que “receberam a responsabilidade e o privilégio de evangelizar os filhos” (nº 2225).

Depois de Deus se ter manifestado ao seu povo no monte Sinai como o único Deus existente e de lhes ter ordenado que o amassem “com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças”, acrescenta logo a seguir: “Repeti-loás aos teus filhos e refletirás sobre isto, tanto sentado em tua casa, como ao caminhar, ao deitar ou ao levantar”. “Quando, amanhã, os teus filhos te perguntarem que regras, leis e preceitos são estes que o Senhor, nosso Deus, vos impôs, dirás, então, aos teus filhos: 'Éramos escravos do faraó, no Egito, e o Senhor tirou-nos do Egito com mão forte. À nossa vista, o Senhor fez sinais, prodígios enormes e terríveis no Egito contra o faraó e toda a sua casa. Quanto a nós, tirou-nos de lá, para nos introduzir aqui e nos dar a terra que prometera em juramento a nossos pais” (cf. Dt 6,4ss). 

Este texto, tão importante para o povo judeu ao longo dos séculos, pois permitiu que as suas famílias se mantivessem unidas, dá-nos a entender a importância que tem para os pais o fato de transmitirem a fé aos filhos e também nos faz compreender que este mandato divino foi dado aos pais e não pode ser delegado a ninguém. Devem ser os pais a explicar aos filhos o amor que Deus teve por eles. 

Para os primeiros cristãos, transmitir a fé aos filhos a través das Sagradas Escrituras que se cumprem em Jesus Cristo era a missão primordial. Assim o testemunha a Segunda Carta de Paulo a Timóteo: “Tu, porém, permanece firme naquilo que aprendeste e de que adquiriste a certeza, bem ciente de quem o aprendeste. Desde a infância conheces a Sagrada Escritura, que te pode instruir, em ordem à salvação pela fé em Cristo Jesus” (2 Tm 3,14-15). Esta tradição tem-se mantido nas famílias cristãs, de várias formas diferentes, ao longo dos séculos. Disso nos dão testemunho os numerosos mártires jovens. 

O Caminho Neocatecumenal, enquanto iniciação cristã que se realiza nas dioceses e nas paróquias, também ensina os pais a transmitir a fé aos filhos, e fá-lo sobretudo numa celebração familiar, numa liturgia doméstica.

A família cristã, dizemos nós aos irmãos, tem três altares: o primeiro é a mesa da Santa Eucaristia, onde Cristo oferece o sacrifício da sua vida para nossa salvação; o segundo, o tálamo nupcial, onde se realiza o sacramento do matrimônio e se dá a vida aos novos filhos de Deus - o tálamo nupcial, ao qual se deve grande honra e glória; o terceiro altar é a mesa da família, onde a família come unida, bendizendo o Senhor por todos os seus dons. È à volta desta mesa que se faz a celebração doméstica e que se passa a fé aos filhos. 

Ao fim de mais de trinta anos de Caminho, um dos frutos que mais nos consola é ver as famílias reconstruídas, como uma verdadeira “Igreja doméstica”. Estas famílias, abertas à vida e, portanto, geralmente numerosas, assumem o dever primordial da família cristã, que é transmitir a fé aos seus filhos.

Além da oração da manhã e da noite, da oração antes das refeições, e além da participação com os pais na Eucaristía da comunidade, a transmissão da fé aos filhos realizase fundamentalmente, como já dissemos, numa celebração doméstica no dia do Senhor. 

Nesta celebração, os pais rezam os salmos das Laudes com os filhos, lendo as Sagradas Escrituras e perguntando-lhes: “Que diz esta palavra à tua vida?”. É impressionante ver como os filhos aplicam a Palavra de Deus à sua história concreta. No fim, o pai e a mãe comentam brevemente a Palavra, a partir da sua própria experiência, convidando os filos a rezar pelo Papa, pela Igreja, pelos que sofrem etc. Depois rezam o Pai Nosso e dão a paz uns aos outros. A celebração termina com a bênção dos pais a cada um dos filhos.

A Exortação Apostólica Marialis cultus, do Papa Paulo VI, afirma, no nº 53: “Segundo as diretrizes conciliares, a Liturgia das Horas inclui justamente o núcleo familiar entre os grupos que melhor se adaptam à celebração em comum do Ofício Divino: ‘Convém, finalmente, que a família, enquanto sacrário doméstico da Igreja, não só eleve preces comuns a Deus, mas também recite oportunamente algumas partes da Liturgia das Horas, com o fim de se unir mais intimamente à Igreja’ (nº 118). Devem envidar-se todos os esforços para que esta clara indicação encontre nas famílias cristãs uma crescente e gozosa aplicação”.

E, no nº 54, o Papa prossegue, dizendo: “Depois da celebração da Liturgia das Horas – cume a que pode chegar a oração doméstica -, não há dúvida de que o Rosário à virgen Santíssima deve ser considerado uma das mais excelentes e eficazes orações em comum que a família cristã é convidada a rezar”.

O resultado desta solicitude dos pais para com os filos é que quase todos eles estão na Igreja. Por isso há tantos jovens nas Comunidades Neocatecumenais. Destas famílias têm vindo a surgir milhares de vocações para os seminários e para os mosteiros. 

Alegra-nos que o Instituto Pontifício João Paulo II trabalhe com empenho na investigação sobre a família e ajude os pais a transmitir a sua fé aos filhos, a partir desta modalidade específica. É uma missão importante, que deve ser apoiada e alentada.

Como dissemos, hoje é de importância vital para a família cristã uma celebração familiar, uma liturgia doméstica, onde as duas gerações – filhos e pais - se possam encontrar, pelo menos uma vez por semana, e onde posma rezar e dialogar, colocando a Palavra e o Senhor Jesus resucitado no centro.

A nossa sociedade está desagregando a família: no que se refere a tempos (ritmos de trabalho e horários escolares), a seus membros (uniões de fato, divórcio etc.), a formas de viver, mas sobretudo através de uma cultura que nos rodeia e que é contrária aos valores do Evangelho.

Estamos convencidos que a verdadeira batalha que a Igreja é chamada a enfrentar no terceiro milênio, o verdadeiro desafio que ela deve assumir e em que se joga o seu futuro, é a família.

Como já recordamos, a 30 de Dezembro de 1988, na homilia de Porto San Giorgio, o Papa João Paulo II confiounos esta tarefa premente, dizendo-nos, com muita força:

“Com todas as vossas orações, com o vosso testemunho, com a vossa força, deveis ajudar a família, tendes de protegê-la de todo o tipo de destruição. Assim como não existe outra dimensão na qual o homem se possa exprimir como pessoa, como vida, como amor, também se deve dizer que não existe outro lugar nem outro ambiente no qual o homem possa ser mais destruído. Hoje fazem-se muitas coisas para normalizar essas destruições, para legalizar essas destruições: destruições profundas, feridas profundas da humanidade. Faz-se muita coisa para ‘compor’, para ‘legalizar’. Nesse sentido diz-se ‘proteger’, mas não se pode proteger realmente a família sem entrar nas suas raízes, nas suas realidades profundas, na sua natureza íntima; esta natureza íntima é a comunhão das pessoas à imagem e semelhança da comunhão divina. Família em missão, Trindade em missão”.[4].

Portanto, estamos contentes por colaborar com este Instituto, tão querido do Servo de Deus João Paulo II, dando a experiência de muitas famílias de todas as condições sociais e culturas. Devemos estar sempre ao lado das famílias, apoiar a oração em família (a celebração familiar a que eu me referia antes) e ajudar os pais a transmitir a fé aos filhos.

Embora muitas famílias não tenham o apoio de uma formação cristã comunitária como o Caminho Neocatecumenal, estamos convencidos que esta celebração doméstica será para muitas delas uma pequena semente que, com a graça do Espírito Santo, se poderá transformar um dia Numa grande árvore, numa árvore maravilhosa e cheia de frutos. Muitos adultos nunca esquecerão a celebração doméstica da sua família, onde viram os pais amar e rezar a Deus com verdadeira convicção.

 

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1) Afirmam-no dois textos autorizados: “Catecumenato post-battesimale per l’approfondimento della vita Cristiana”, em Notitiae 95-96, Julho-Agosto 1974, pp. 229-230: “Omnes reformationes in Ecclesia novos gignerunt inceptus novasque promoverunt instituta, quae optata reformationis ad rem deduxerunt. Ita evenit post Concilium Tridentinum; nec aliter nunc fieri poterat. Instauratio liturgica profunde incidit in vitam Ecclesiae… Praeclarum exemplar huius renovationis invenitur in ‘Communitatibus Neochatecumenalibus…” Também João Paulo II, ao receber os iniciadores do Caminho e os itinerantes em Castel Gandolfo, a 21 de Setembro de 2002, três meses depois da primeira aprovação do Estatuto do Caminho, disse: Numa sociedade secularizada como a nossa, em que se vai propagando a indiferença religiosa, e muitas pessoas vivem como se Deus não existisse, são muitos os que necessitam de uma redescoberta dos sacramentos da iniciação cristã, especialmente do Batismo. O Caminho é, sem dúvida, uma das respostas providenciais a esta necessidade premente…” (Discurso aos iniciadores do Caminho, aos catequistas itinerantes e aos presbíteros , 21 de Setembro de 2002).

2) Cfr. Lc 2,52.

 

 

Assim, cada família humana, cada família cristã, encontra-se em missão. É esta a missão da Verdade. A família não pode viver sem Verdade, ou antes, ela é o lugar onde existe a sensibilidade extrema à verdade. Se falta a Verdade na relação – marido, mulher, pais, mãe, filhos – se falta a Verdade, quebra-se a comunhão, destrói-se a Missão. Todos vós bem sabeis como esta comunhão da família é realmente sutil, delicada, facilmente vulnerável. E assim se reflete na família, a par da missão do Verbo, do Filho, também a missão do Espírito Santo, que é Amor. A família está em missão, e essa missão é fundamental para cada povo, para a humanidade inteira: é a missão do amor e da Vida, é o testemunho do amor e da Vida.

3) O texto do Santo Padre dizia ainda: “A missão divina do verbo é falar, dar testemunho do Pai. É importante a família que fala, porque revela como primícia este mistério, que dá testemunho de Deus Pai diante das novas gerações. A sua palavra é mais eficaz.

Queridos, vim aqui de muito boa vontade. Acolhi com gratidão o vosso convite na festa da Sagrada Família para rogar junto de vós pelo mais fundamental e mais importante da missão da Igreja: a renovação espiritual da família, das famílias humanas e cristãs de cada povo, em cada nação, sobretudo talvez no nosso mundo ocidental, mais avançado, mais marcado pelos sinais e pelos benefícios do progresso, mas também das faltas deste progresso unilateral. Se há que falar de uma renovação, de uma regeneração da sociedade humana, ou antes, da Igreja como sociedade dos homens, há que partir deste ponto, desta missão. Igreja Santa de Deus, tu não podes fazer a tua missão, não podes cumprir a tua missão no mundo, a não ser através da família e da sua missão.

É esta a finalidade principal pela qual acolhi o vosso convite para estarmos juntos e rogar juntos, sobretudo neste ambiente formado por famílias, por esposos, por crianças, formado, sobretudo, por famílias itinerantes. É uma coisa bonita. Vemos que a Família de Nazaré também é uma família itinerante. E o foi desde o início, desde os primeiros dias de vida do Deus Menino, do Verbo Encarnado. Ela teve de se converter em família itinerante: itinerante, sim, e também refugiada” (L’Osservatore Romano, 31 de Dezembro de 1988, ed. italiana).

4) L’Osservatore Romano, 31 de Dezembro de 1988 (ed. italiana).